domingo, 21 de fevereiro de 2016

e as luzes que oscilam

esse som quebrado em que o pianista parece correr lado a lado por todas as teclas possíveis dentro de um compasso e o trompetista bipolar berra pouco antes do prato atacar para depois se lamentar.

era um quinteto mas não vou detalhar
uma pena não poder ouvir ao vivo um dia
mas nem dá pra reclamar

já que como o jazz me movo sem parar

dentro de um ônibus que mesmo não espacial já me tirou de onde eu não queria estar
e não sei em qual cidade estou, mas vejo estrelas e letreiros de motéis em neon que raramente acendem inteiros me deixando imaginar assim tantas outras palavras
partir é estar em outro lugar mesmo que na transição da rodovia para o mar
e a música e a constelação e as luzes que oscilam não me dão motivos para fechar os olhos
logo eu pego um café preto na estrada
como é bom viajar

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

marcador/mar/marca/dor

ela me deu um marcador.
naquela noite de inverno no trem em que eu carregava um livro antigo da biblioteca do meu avô.
trabalhadores do mar, de victor hugo. capa azul marinho e marcador em fita de cetim da mesma cor.
sendo assim perdi o marcador. que ela estendeu enquanto olhava pra mim e seguia pelo corredor.
com o seu número de telefone.
eu não gosto de telefone, mas se soubesse que seria a última vez que a veria. discaria. guardaria melhor aquela tira de papel que, por timidez deixei de observar os detalhes da estampa impressa e coloquei dentro do chapéu que segurava no colo. eram flores e eu acho que petúnias. só lembro do seu nome escrito em letra cursiva com caneta esferográfica de tinta preta.
desembarquei uma estação antes e acenei por movimento de rotina.